Divirta-se com os costumes e as histórias que marcaram décadas dessa grande festa na ilha de Parintins, um lugar mágico e cheio de acontecimentos inesquecíveis.

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Textos Nelson Brilhante

Cesária na cobra do Jair


 

Festival Folclórico de 1982, no tablado feito no Estádio Tupy Cantanheyde. Jair Mendes, papa da criação bovina, a partir do Garantido, teve a feliz idéia de contar a lenda da Cobra Grande, uma obra prima para jurado nenhum resistir a uma nota 10.

Na hora H, lá vem o gigantesco animal tomando conta do tablado, movendo-se pela força de muitos homens dentro do bicho. Só que, antes, a notícia vazou. É que o vigia do estádio era do Caprichoso e contou que às 2h30 da madrugada o povo do boi vermelho havia feito um alçapão no meio do tablado.

Enquanto o boi azul abria a noitada, o finado Teco, azul até a morte e bom marceneiro que era, comandou uma ação, digamos, terrorista. Com um martelo possante e pregos porrudos, foi por baixo do tablado e vedou completamente o alçapão por onde sumiriam as vitimas da cobra.

"Olhem, senhores jurados, como a Cobra Grande está atraindo as pessoas", narrava o apresentador Paulinho Faria, no momento em que o fotógrafo presepeiro "Panela de Ferro" era puxado por uma força estranha para dentro do bicho. E mais gente foi sumindo naquela bocarra.

Até que algo estranho começou a acontecer: o monstro passou a inchar no meio. É que os "engolidos" chegavam à saída, e nada de buraco. Para não haver uma mortandade por asfixia, o bicho teve que ir, de banda, até a lateral do tablado, onde foi feito uma cesariana no asqueroso, a fim de tirar os desmaiados, inclusive o Jair.

 

Noite de torcicolo bovino


 

Uma das primeiras maravilhas do boi na era revolucionária foi a mexida de cabeça do Garantido, invenção do Jair Mendes para o orgulho da nação vermelha e branca. O Caprichoso relutava em implantar o que depois viria a ser tão simples quanto dançar o “dois pra lá e dois pra cá”.

Os apresentadores do touro negro tentavam minimizar o efeito, dizendo que em vez de mexer a cabeça, o Caprichoso mexia era com a galera. Mas, não teve jeito, e em 1981 foram buscar o artista Laurimar, em Santarém (PA), conhecido por ter revolucionado os blocos carnavalescos da Pérola do Tapajós.

Festival no Estádio Tupy Catanheide, e a nação azul saiu de casa preparada para ver uma surpresa, anunciada com muito suspense no programa feito na Rádio Alvorada. Como o segredo é a alma do boi, o Laurimar não conhecia o mecanismo usado pelo Jair Mendes na engenhoca que fazia a cabeça do Garantido serpentear com tanta facilidade.

Então, o artista mocorongo recorreu ao sistema de dobradiças, essas  usadas em porta. E lá vem o Diamante Negro, todo garboso, numa bela alegoria. Na hora mais esperada, o apresentador criou aquele suspense de matar.

“Atenção galera... é agora!”. E foi. O tripa, emocionado, girou a cabeça do boi para o lado direito, mas com tanta força que uma das dobradiças emperrou e o torcicolo bovino foi inevitável, como foi inevitável uma toada do contrário, no ano seguinte.

 

Quem manda ser bêbado


 

Festival no Bumbódromo e o Caprichoso tinha uma atração pra jurado nenhum botar defeito. Era a Lenda do Carcará, uma espécie de gavião gigante que costumava caçar bêbados. O pássaro assassino não podia ver um “truviscado” que cravava suas garras afiadas nas costas da vítima e levava para devorá-la sabe lá onde.

O apresentador Franco Costa foi orientado a criar muito realismo na hora em que a figura do pássaro descesse no cabo de aço e pegasse um suposto bebum, no meio da arena. Ele tinha que ser bem dramático e realista. Mas, quando o personagem (que só bebia Guarasuco), entrou na arena, cambaleando, o Franco Costa exagerou na dose.

“O que este bêbado está fazendo aí? Será que aqui não tem segurança?”, indagava o trepidante locutor, tentando convencer os jurados de que o cara estava mesmo até o tucupi de cachaça. Só que foi tão realista que conseguiu enganar até um dos membros da equipe de arena.

João do Carmo, o Careca, azul até a alma, fundador do Bar do Boi, não ia deixar um pudim de cana qualquer prejudicar o seu Caprichoso. Careca tufou os peitos e saiu de si. O que se viu foi o He-Man invocando os poderes de Greyskull. Ele entrou mais rápido que bala e deu uma gravata quase que mortal no infeliz personagem.

Quando se preparava para arrastar a vítima para fora da arena é que foi informado da gafe. O bêbado seguiu cambaleando, agora de verdade, todo “muído”, pelo arrocho do Careca.

 

Se a mamãe deixar


 

Em 1987, o cantor e compositor J. Carlos Portilho, do Caprichoso, foi convidado para um festival da canção na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus. E ele resolveu levar várias figuras do boi. Conseguiram um galpão para guardar toda a estrutura, mas o problema era levar capacetes e fantasias, sem danificar.

Portilho recorreu à Odinéia Andrade, primeira ministra do boi, que se encarregou de escalar alguns nomes, entre eles, os festivos Municinho e Manoel Ribeiro, tuxaua de respeito. Odinéia chamou o Manoel e perguntou se ele podia ir como responsável pelas fantasias, que iriam num barco.

Ela falando e ele, no mundo da lua, com um olhar distante. Levou uma bronca federal. “Odinéia, vai pedir da mamãe, porque não sei se ela vai deixar”, disparou o grande Manoel, do alto dos seus 36 anos de idade.

“Vai tomar no teu... que eu não vou pedir coisa nenhuma! Tamanho macho!”. Mas não teve jeito e lá se foram ela e o Portilho, por uma longa trilha no mato até chegar à casa dos Ribeiro, que era de frente para o Lago Macurani.

Quando Manoel viu a dupla, correu para avisar a mãe e ficou atrás da porta, roendo a unha, tamanha a ansiedade. De vez em quando, dava uma olhada e recuava para o esconderijo. Feito o pedido, veio a resposta da dona Maria. “Olhe, dona Odinéia, esse menino anda muito malcriado, só vive fazendo estripulias. Eu não ia deixar, mas como é com a senhora, eu deixo”.                 

         

Tem 'istiarina' no tablado


 

Sabe a história da Cobra Grande do Jair Mendes, que teve de ser estourada para que dezenas de pessoas que foram engolidas pelo animal não morressem por asfixia? Pois é, teve troco. Aliás, em se falando de Garantido e Caprichoso, isso é mais certo que chover num dos três dias de Festival.

Noite bonita, estrelada, e o Garantido era o primeiro a se apresentar. Estava sendo um show de criatividade, toadas, milhares de palminhas de madeira soando, lendas, tribos, enfim, uma apresentação de gala, fechada com a entrada daquela turma que todos os anos vem atrás da batucada.

Uns vinham com palminhas, mas a maioria trazia um “instrumento” muito diferente. Na verdade, portavam mesmo era vela de parafina, mais conhecida na redondeza como istiarina. Com pequenas facas, ao mesmo tempo em que se esbaldavam no “dois pra lá, dois pra cá”, cortavam as velas em fatias bem finas.

Quando o último integrante do boi da baixa deixou o tablado, o chão da arena, principalmente a faixa central, estava tomado de parafina. Na época a mulher mais bonita ainda não era Cunhã-Poranga e sim, miss do boi. A turma disputava misses nos Estados do Brasil inteiro. A do Caprichoso pagou o pato.

No alto de um salto 15, a bela até que tentava, mas não conseguia desfilar. Com o tablado completamente liso, ela estava mais preocupada em se manter de pé do que mostrar suas curvas, reveladas por um provocante maiô.

 

Um bicho muito doido


 

Boi Garantido em mais uma apresentação no tablado do Estádio Tupy Cantenheide, onde o Festival Folclórico teve que ser apresentado por alguns anos, até que se construísse o anfiteatro Messias Augusto, versão anterior do Bumbódromo.

O apresentador Paulinho Faria fez todo o parangolé para chamar uma das principais atrações, o “Bicho Folharal”, lenda famosa na região. 

Desde a primeira vez que levaram a figura, ela fez tanto sucesso que passou a ser presença obrigatória nos anos seguintes. Festa da curuminzada. Era um homem coberto de folhas da cabeça aos pés. Parecia um grande macaco.

Pois bem. Escolhido o condenado, já que a fantasia esquentava e fedia mais que capacete de motoboy, o dito cujo foi preparado e liberado para se dirigir ao Tupizão. Na hora da apresentação, o Paulinho começou a chamar a atração e, nada. Se esgoelou mais umas três vezes e viu que não tinha jeito.

Bom no jogo de cintura, o apresentador despistou e acabou chamando outra atração. O fato deixou intrigada tropa de choque do boi, que começou a procurar o Bicho pelos arredores do estádio, temendo que algo de ruim tivesse ocorrido. Acharam o personagem estendido na calçada da Rádio Alvorada, a 300 metros do estádio.

Aproveitando a fama, o cara tinha tomado todas e mais algumas e capotou, com folhas e tudo. Na manhã seguinte, quem passava para ir ao mercado, se assustava, pensando que havia caído um galho de árvore na porta da rádio.

 

Um tiro no próprio pé


 

Franco Costa, o locutor, que eu conheci em Santarém (PA), é daqueles que não precisa de microfone. Por ter a voz de trovão, se autodenomina o Peito de Aço. Assim que aterrissou na Ilha, virou apresentador do programa do Caprichoso, na rádio Alvorada.

Depois de idas e vindas, o Festival Folclórico foi parar na quadra da CCE, hoje Silvio Mioto, território do Diamante Negro. É claro que essa idéia não ia dar certo. Na primeira noite, o pau cantou entre vermelhos e azuis. Nem me perguntem quem tinha razão.

Aliás, no meio bovino, todos tem razão. Pois bem, no dia seguinte ao quiprocó, o Franco desceu a lenha na turma do Garantido, dizendo que o Chicão Ianuzzi e sua turma é que tinha provocado a confusão. O acusado foi ao juiz e convenceu o magistrado a determinar a leitura de uma retratação no mesmo horário, isto é, dentro do programa do Caprichoso.

O oficial de Justiça se atrasou, patetando para o semáforo novo, e só chegou com o  “ofício” à rádio quando o programa já tinha iniciado. O funcionário Benedito Lopes recebeu o papel e levou direto para o estúdio, colocando à frente do Franco.

Sem parar de falar, o locutor pegou o papel e começou a ler dando destaque ao meritíssimo. Só quando já estava para acabar é que percebeu que estava “detonando” a si próprio. Saiu em disparada do estúdio e começou uma corrida de perseguição ao Bené, pela rua Leopoldo Neves. Naquele dia, o recorde mundial de velocidade foi quebrado.