Você é nosso convidado a navegar pelo rico universo da cultura amazônica, a dar um mergulho nas cores, ritmos e encantos dos bois Garantido e Caprichoso.


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O nascer do boi-bumbá de Parintins e seu crescimento

Leandro Tapajós*

São inúmeras as versões para o surgimento dos bois de Parintins. Quem é torcedor do Garantido diz que o boi contrário veio depois. Quem é amante do Caprichoso diz que seu bumbá surgiu antes. Enfim, datas exatas não existem. Existem sim histórias e estórias.

Sabe-se que os bois-bumbás de Parintins são hoje parte de um grande movimento de massa e o maior produto cultural do Amazonas.

O Festival Folclórico de Parintins é responsável por movimentar milhões de reais na economia regional, impulsionar o turismo e – segundo alguns pesquisadores das ciências humanas e sociais –, colaborar com a manutenção da identidade regional dos povos da Amazônia.

Mesmo caracterizado como um mega-espetáculo, as origens da festa remontam a caracteres da cultura popular e folclórica. Os bois de Parintins sofrem um grande emaranhado de influências culturais. A religiosidade, os temas indígenas e amazônicos, a cultura nordestina, e até mesmo a mídia televisiva ajudaram a moldar a maior manifestação cultural do Estado do Amazonas.

A fé e as origens

Mesmo após conversas com moradores antigos, primeiros brincantes e folcloristas da ilha Tupinambarana não é fácil chegar a um consenso sobre a origem dos bumbás.

A tradição oral de Parintins conta, em versões variadas, que o Boi Caprichoso foi criado pelos Irmãos Cid e o Boi Garantido pelo parintinense Lindolfo Monteverde.

Os irmãos João Roque, Félix e Raimundo Cid nasceram em Crato, no Ceará. Eles vieram para o Amazonas em busca de trabalho em seringais da borracha, se encantaram com a ilha de Parintins e resolveram viver na cidade.

Uma das versões conta que Roque Cid, teria feito uma promessa para São João após enfrentar algumas dificuldades financeiras e de saúde já em Parintins. Outra versão diz que os irmãos Cid fizeram uma promessa para conseguir uma boa vida, ainda no Ceará, e partiram em busca de uma nova terra.

Independente do motivo que gerou a promessa, o pagamento após a realização do pedido seria o ato de colocar um boizinho para brincar nas ruas em homenagem ao santo. A promessa foi atendida e o boi passou a brincar nas ruas de Parintins.

Supostamente, a origem do nome Caprichoso se deu após os Cid conhecerem o advogado parintinense José Furtado Belém. Ele já conhecia um outro boi-bumbá chamado de Caprichoso, que brincava no bairro Praça 14, em Manaus, então sugeriu a adoção do mesmo nome. A sugestão foi acatada e o boi dos Cid batizado como Caprichoso.

Em 1913 nasceu o boi-bumbá Caprichoso, que teve José Furtado como seu primeiro padrinho.

Há moradores mais antigos da ilha de Parintins que contradizem essa versão e acreditam que os bois Galante e Garantido nasceram antes do Caprichoso.

O boi Galante teria sido criado por Emílio Vieira, também conhecido como o Tracajá. Devido a uma briga interna, Emilio teria deixado o boi de lado e os irmãos Cid passaram a tomar conta do bumbá. O fato teria ocorrido em 20 de outubro de 1913, data considerada como o dia oficial da fundação do Caprichoso.

O boi-bumbá Garantido foi fundado por Lindolfo Monteverde, um negro parintinense, descendente de nordestinos. Os seus familiares contam que após contrair malária em um seringal, foi feita uma promessa para São João. Se a saúde de Monteverde fosse restabelecida ele colocaria um boizinho para brincar nas ruas em honra ao santo.

São João atendeu a súplica e nasceu em 1913 o boi-bumbá Garantido. Os primeiros anos de brincadeira contavam com a participação de Pai Francisco, Catirina, Mãe Maria, pai da Mata, Gazumbar e vaqueiros.

Uma 'sátira sagrada'

A exaltação da figura do boi é comum em várias civilizações e a ligação dele com o sagrado também. No antigo Egito o touro Ápis era cultuado, na Índia a vaca ganha ares de divindade. Em Parintins, o boi servia como meio de homenagear os santos e expressar a fé.

Mas, além da função religiosa, brincar de boi representava também um meio de expressão da cultura marginal, popular.

Nos primórdios da festa – quando se celebrava o auto do boi – o boi-bumbá era cômico e grotesco, uma verdadeira sátira.

O auto é resquício da cultura nordestina e contava a história da morte e ressurreição do boi preferido do dono da fazenda – morto para atender o desejo de Mãe Catirina, uma negra grávida, esposa de Pai Francisco, que queria comer a língua do touro preferido do amo.

Era teatralização de uma realidade oposta aos interesses da elite. A exaltação dos interesses da classe tida como marginal, dos negros, dos funcionários, que afrontavam o dono da fazendo ao atender os desejos de uma negra grávida.

A sátira perdeu lugar para outras formas. O enredo do boi-bumbá foi se adequando aos novos tempos e de 1913 até os dias atuais recebeu a influência de muitos elementos.

Se antes a festa servia para satirizar, hoje se pode dizer que serve para conscientizar sobre as questões amazônicas e a importância da preservação ambiental.

Na década de 80 o teatro de Pai Francisco e Mãe Catirina perdeu espaço e as figuras indígenas foram paulatinamente introduzidas na festa. O boi-bumbá passou a ganhar ares mais caboclos. As lendas, rituais estilizados e retratos da vida do homem amazônico passaram a ser encenados.

O nascer do festival

Os bois rivais Caprichoso e Garantido dançavam em apresentações nas ruas e quadras de Parintins. Nas décadas de 50 e 60 a rivalidade era tamanha que havia brigas e confrontos entre os brincantes dos bois.

Superando a rivalidade, os bois dançaram em uma noite beneficente para a construção da Catedral de Parintins, após sugestão de José Preferida. Depois disso, Jansen Godinho, que dançava a dança do Cacetinho em Manaus, no ano de 1965, sugeriu a criação de um festival folclórico.

A Juventude Alegre da Catedral (JAC), o padre Augusto Gianola, Xisto, Raimundo Muniz, entre outros, ajudaram a apadrinhar a festa, que cinco anos depois passou a ser custeada pela prefeitura.

Em 1979, devido a conflitos entre simpatizantes dos bois, as apresentações passaram a ocorrer no estádio de futebol Tupi Cantanhede. Apenas três anos depois Caprichoso e Garantido passaram a se apresentar no local do atual Bumbódromo, em um palco de madeira.

Em 1988 foi inaugurado o Centro Cultural e Esportivo Amazonino Mendes, mais conhecido como arena do Bumbódromo. Local onde é realizado o Festival Folclórico de Parintins até os dias de hoje.

Os itens julgados

Nem sempre os itens apresentados foram os mesmos. Havia a porta-estandarte, que dançava de vestido, similar as das escolas de samba; o toureiro; os primeiros índios (com traços inspirados nos filmes de faroeste norte-americano); a Miss Boi – substituída pela atual cunhã-poranga.

Entre os itens que compõe as apresentações dos bois estão:

APRESENTADOR: uma espécie de mestre de cerimônia, que conduz a encenação.

LEVANTADOR DE TOADAS: o cantor responsável por defender o item toada letra e música.

BATUCADA OU MARUJADA: fazem parte do bloco musical, dão a sustentação rítmica à apresentação

RITUAL INDÍGENA: recriação de modo estilizado de algum ritual de alguma tribo indígena da região amazônica

PORTA-ESTANDARTE: representa o símbolo do Boi em movimento. Leva o estandarte com o tema do boi

AMO DO BOI: no auto do boi é o dono da fazenda. Tira versos e faz desafios ao boi contrário

SINHAZINHA DA FAZENDA: é a filha do dono da fazenda

RAINHA DO FOLCLORE: sintetiza os elementos do folclore amazônico e as lendas encenadas

CUNHÃ-PORANGA: é a representação da beleza e garra da mulher amazônica

BOI BUMBÁ EVOLUÇÃO: é o próprio boi e sua dança. A coreografia e os movimentos devem ser similares aos de um boi real

TOADA (LETRA E MÚSICA): música que é avaliada em harmonia e conteúdo

PAJÉ: é o curandeiro, o sacerdote da tribo

TRIBOS INDÍGENAS: representação de modo estilizado das etnias amazônicas

PAI FRANCISCO E MÃE CATIRINA: resquícios do auto do boi. O casal que corta a língua do boi

TUXAUAS: são os chefe das tribos

FIGURA TÍPICA REGIONAL: símbolos humanos da cultura amazônica (ex: o caboclo; o seringueiro; a mulher cabocla; o mateiro etc)

ALEGORIA: estrutura artística que serve como cenário para a apresentação.

LENDA AMAZÔNICA: encenação baseado no lendário indígena

VAQUEIRADA: servem como os guardiões do boi, com suas lanças dançam em volta dele e representam a tradição.

GALERA: é o nome dado para as torcidas. Também são avaliadas, devem dançar, cantar e interagir com o espetáculo. Durante a apresentação do boi contrário a torcida não pode se manifestar, em respeito ao concorrente

ORGANIZAÇÃO E CONJUNTO FOLCLÓRICO - APOTEOSE: organização e apresentação do conjunto de itens individuais, artísticos e coletivos na arena

COREOGRAFIA: as danças apresentados durante todo o espetáculo

* Leandro Tapajós é jornalista, possui trabalhos publicados sobre o Boi-bumbá de Parintins, entre eles um ensaio na Revista Internacional de Folkcomunicação